Levar um rolo de filme para ser revelado era um ritual sagrado. "Vou revelar as fotos e já volto"; eu ouvia isso de alguma de minhas irmãs e queria ir junto, queria poder ver logo como tínhamos conseguido fotografar. O que tinha ficado bom? Perdemos a chance de registrar direito uma memória porque o dedo de alguém ficou na frente da lente? Será que eu pisquei e saí de olhos fechados naquele único registro do jantar com nosso pai? Quando finalmente tínhamos em mãos as fotografias reveladas (depois de uma viagem, por exemplo, em que teríamos cautelosamente escolhido os momentos adequados, com os quais valeria a pena gastar mais um giro do filme), nessa hora de descoberta, agarrávamos de volta as experiências, perdidas há dias, semanas ou meses, algumas das quais já tínhamos esquecido que havíamos desejado fotografar. Passando de uma foto a outra, talvez buscássemos encontrar o resultado de alguns cliques específicos, mas o fato é que havia surpresa em cada uma das checagens, pois não era possível prever a quantidade de luz, a nitidez e a qualidade do ângulo que a câmera analógica, em nosso amadorismo, teria produzido. A estética final de cada fotografia, portanto, era ressurgimento do instante vivido e era, ao mesmo tempo, uma impressão inédita de um significado que nunca fez parte da experiência consciente do instante. Essa memória do tempo dos filmes fotográficos nos leva ao que a fotografia é em sua essência, uma recuperação inesperada. Mesmo com toda a mudança que as câmeras digitais e os celulares trouxeram à fotografia, o valor de manifestação e de ressurgimento não está de todo perdido em nossa experiência. Apesar de o processo de revelação ser em grande parte a razão da magia fotográfica (e as fotos de hoje serem produtos imediatamente descartáveis porque contínuos), ainda assim o peso do tempo imprime feridas sobre as fotos, dia após dia; se olharmos atentamente, veremos em todas elas o "perdidamente vivo" – como diz Barthes em um dos significados explorados em seu último livro, "A câmara clara", publicado em 1980. Nele, o seu estudo da fotografia nos leva ao reconhecimento da dualidade de objetividade e subjetividade fotográficas. Como imagem, a fotografia comunica o mesmo problema platônico da realidade, tão íntimo à compreensão da semiologia de Barthes. Por outro lado, como objeto feito de luz, a fotografia é descoberta por Barthes em um valor distinto de todas as outras linguagens: o da inesperada vitória sobre a impossibilidade de uma representação do real. Essa é a entrada para o vídeo novo desta semana:
Há 8 anos, descobriu-se que um corpo cortava o céu, caindo e brilhando. Sabia-se que não poderia cair e brilhar para sempre. Essas quedas que brilham sonham com a eternidade, pois caem em órbita, não atingem um chão, caem como se subissem, e sobem como se caíssem. Essas quedas só terminam com um impacto descomunal, ou com uma força divisiva. As razões da autodestruição desse corpo que brilhava ainda não são inteiramente compreendidas, mas ele começou a enfrentar turbulências e a girar numa velocidade desregrada, o que, segundo os cientistas, comprometeu sua inclinação e excentricidade (desvio de um centro gravitacional seguro) e apresentou uma ameaça à estabilidade de sua própria estrutura. Tal velocidade explicaria o evento observado em 2016: a desintegração do núcleo e sua fragmentação em 25 pontos luminosos – agora dispersos pelo espaço, como pó.
Antes de se desintegrar, esse corpo, que dava a impressão de ser uma união perfeita, brilhou e cortou o céu de maneira lenta e bruxuleante; se visto a olho nu, seria como uma daquelas estrelas brandas que somem quando olhamos diretamente, e que só brilham na periferia de nossa visão, pois é por onde a incidência enviesada da luz atinge os cantos de nossas pupilas e encontra nos bastonetes da retina uma maior sensibilidade.
Outras análises sobre o corpo que brilhava apontam a possibilidade de que ele já não estivesse unido antes da aparente desfragmentação de 2016; os cientistas adeptos dessa teoria acreditam que o corpo se movia ao mesmo tempo que se desintegrava, girando e se separando de si mesmo em perfeito equilíbrio. Uma dança da morte. Isso explicaria o grande cumprimento de sua "cauda" (uma estranha radiância espectral, que se estende às suas costas e cresce, como passado e como alerta), cuja extensão de pouco mais de 4 mil quilômetros cobriria, quase com exatidão, a distância entre os pontos extremos do Norte e do Sul da nação brasileira, de Monte Caburaí em Roraima, até o Arroio Chuí, no Rio Grande do Sul. A medida da cauda oriunda da desintegração desse corpo também coincide com a distância à esquerda e à direita, entre os extremos do oeste na Nascente do Rio Moa, no Acre, até o leste na Ponta do Seixas na Paraíba.
Esse corpo é o cometa batizado como 332P/Ikeya-Murakami, descoberto por dois amadores, Kaoru Ikeya e Shigeki Murakami, em 3 novembro de 2010. Há 8 anos.
Antes nos pediam que deixássemos recados, scraps,
diretamente no espaço que era do outro. Ou depoimentos. Era preciso ir lá,
atrás da página alheia e dizer ao outro tudo o que tínhamos de melhor para
dizer. Era imprescindível ter um destinatário bem definido a cada mensagem
enviada. Algo muito semelhante ao cotidiano da rua. Se eu não firmar um
destinatário e sair simplesmente dizendo ao vento, certamente ninguém escutará.
Nem que eu grite! Se gritar na Paulista, serei visto como louco. No orkut, os
loucos apareciam menos, pois não podiam gritar tanto, tinham que falar e
esperar a resposta. Uma manifestação mais autocentrada veio depois, ainda que
limitada, quando atualizaram o layout e se tornou possível postar algumas
coisas no perfil, graças àquela longa edição: vídeos numa aba, fotos noutra. E
as pessoas também davam um jeito de caprichar na edição do 'profile', para
dizer ao mundo quem elas eram; nisso, enchiam com mil informações a opção
'about me'; ali estava a bíblia pessoal de cada um. Citações de livros, letras
de música, gírias, palavras propositalmente digitadas erradas, pois era moda
ser assim: sabidamente errado. E na falta de emojis, bastavam os u.u, -.-, xD~,
^o^, ;D. Tudo aquilo descrevia bem nosso jeito inocente de ver as coisas. E de
certa maneira, nos impedia de descrever aquelas outras partes de nós mesmos que
talvez não fossem tão publicáveis.
Feliz ou infelizmente, tenho uma memória bem indexada.
Ao menos, sobre as coisas antigas (minha memória é falha para os detalhes da
ordem do dia, coisas que meu inconsciente apaga sem me avisar). Consigo acessar
os anos, por exemplo, 2004, 2005, 2006 e 2007, e selecionar o que acontecia
aqui e ali, comigo e no mundo (diminuta parcela do mundo que eu conhecia).
Lembro do que diziam alguns perfis de amigos – alguns dos quais agora estão
aqui no facebook. Lembro também de mim. Nessa época eu era emo. Odiava que me
chamassem de emo. E eu dizia que eu não era emo!, especialmente a quem queria
usar da palavra como xingamento (O Unilson era o único que sabia usar essa
palavra sem ser pejorativo, ele falava e eu não me sentia ofendido). Mas
olhando pra trás, agora sei que eu só podia me enquadrar naquela descrição de
emo mesmo, devido à aparência que eu escolhia ter e às músicas que eu dizia
gostar. Os cabelos alisados, caídos até a ponta do nariz; munhequeiras pretas,
batucando New Found Glory e My Chemical Romance na mesa com o Suguita. Antes de
ser emo, eu me achava bem feio e queria ficar bonito. Ser emo foi o jeito que
eu encontrei pra ser estiloso e ter algum sucesso com alguma menina. Embora
possa se argumentar com rigor, e razão, que esse estilo tenha me deixado mais
feio do que eu já imaginava ser!
Bom, digo tudo isso só para lembrar do ambiente do
orkut, de quando seguir mais de mil comunidades era motivo de orgulho:
"olhem só quantas coisas eu aprecio! Eu sou uma pessoa com muitos gostos,
eu faço parte de muitas comunidades e cada uma delas me representa. Em algumas
delas eu até posto e converso com pessoas de todo o Brasil! Outras, eu mesmo
criei."
Não tive myspace, pulei direto para o facebook em
2008. E, se não me engano, naquela época a página inicial nos perguntava:
"o que você está fazendo agora?", antes de passar à intrometida e
grave questão de hoje: "No que você está pensando, Leon?" Esta é uma
pergunta que não tinha no orkut, embora todas as ações desempenhadas lá
diluíssem essa questão e tudo ficasse subentendido. No facebook, porém, não!, o
facebook não quer rodear o cerne da coisa e atrasar o verdadeiro espetáculo do
humano público. O facebook se apresenta logo de cara, sem rodeios:
"fale-nos o que você pensa, coloque pra fora isso que, em tese, deveria
ser seu e só seu; publique o privado!" O twitter percebeu esse mesmo valor
de exteriorização e construiu-se em torno do pensamento como acontecimento,
como coisa curta: a opinião reduzida e redutora, como aforismo ruim.
Antes que nos déssemos conta, deixamos o campo seguro
dos scraps para trás e adentramos o belíssimo novo mundo das convicções pessoais
e do textão narrativo, como este, que nem todos lerão, pois não se define um
destinatário, não se convoca o outro. É o mundo em que publicamos o privado sem
vergonha alguma do que temos a dizer aos outros, pois o pensamento agora não
necessita de amadurecimento e dúvida; não! Ele pode (e passa a dever) ser
entregue como opinião formada. E ai daquele que ainda não formou uma opinião.
Como assim você não tem opinião?! Não está convicto de que você DEVE pensar
alguma coisa? Não vai nos dizer o que está aí dentro? Vamos, diga aos seus
amigos, eles estão esperando. Eles esperam para poder decidir se você pensa
como eles, se você É como eles, se seu pensamento encaixa-se nos deles. E
pronto, num piscar de uma década, o pensamento e a opinião são formulações públicas,
numa construção permanentemente interrompida. Obra interditada! É o abandono do
que viria a ser. E quem lhe entrega o caminho abandonado de sua opinião? É o
outro, que já percorreu o caminho e está esperando para saber se você seguirá
por onde ele lhe assegura ser o ideal. No entanto, nem ele, nem o outro a quem
ele deu ouvidos antes de se dirigir a você, desbravaram este caminho. Ninguém
construiu essa coisa abandonada. E ninguém mais consegue saber quem abriu a
mata e deixou a trilha ali, bonitinha, para você passar e chegar a lugar
nenhum.
Ai de quem tem dúvida sobre o histórico de cada
caminho!
A verdade, que sempre esteve na dúvida, agora está
apenas na certeza. Está no dizer pelo dizer. Se fulano disse, está dito. E já é
verdade-certeza. Verdade esta que a pessoa, no fundo, sabe se tratar de uma
certeza que é de um outro. Mas isso não impede que todos se sintam donos.
Aliás, ficam muitíssimo confortáveis em se fazerem donos do que é do outro.
E, assim, se coloca o inadmissível: a maioria de nós é inteiramente
incapaz de justificar suas opiniões. E digo justificar naquele sentido das
provas de história do Professor Valmir. Imagine se cada convicção e voto
orgulhoso fosse seguido da necessidade de uma justificativa bem dada, bem
formulada. Danou-se. Não seria possível enrolar, seria inaceitável não saber
definir o significado e as implicações de cada palavra utilizada em sua
justificativa. As respostas que sairiam dessa verdadeira obrigação (a da
explicação) seriam risíveis e reprovadas. Risíveis tanto quanto foram aqueles
textos que deixávamos, eu e você, no 'about me' do orkut. Em certa medida, como
o é risível este texto que publico agora – se voltar a lê-lo daqui a uma
década, será uma piada. Tão reprovável quanto querer ser mais bonito seguindo
aquela moda de 2004.
Chegar no dia seguinte é sempre esquecer
um pouco do dia anterior. Isso todo mundo sabe. É fácil concordar. Sacrificamos
nossa memória, é processo natural, fisiológico. Se não fossem as ferramentas da
língua, não haveria jeito de contar direito estória nenhuma. Muito menos História. Ainda
uso estória, é parte do que me recuso a esquecer. Língua-país-gente que não diferencia
essas duas palavras, não tem História, nem estórias. Quero sonhar. Quem mais
quer? Os monstros também sonham. Nossa monstruosidade é primeiro particular, mas é fenômeno útil quando
toma corpo em grupo. Esse monstro que é feito de todos acorrenta a si mesmo, ri e chora, corre e se
agarra, usa das próprias mãos como se fossem outras, contrárias ao desejo do
corpo; trôpego, esse monstro, confunde progresso e retrocesso. Ele sobe a
ladeira… até chegar lá embaixo, onde está aquela pedra enorme do castigo. Mas empurrar
essa pedra e castigar-se como um digno mortal, essa é uma ideia que não passa pela
cabeça do monstro. Pois ainda é criança e faz ciranda ao redor da pedra. Quer
provar-se gigante. Imortal. Para tanto, que outro jeito haveria, senão devorando parte
de sua própria natureza e ainda se achando vivo? À autofagia, o sacrifício é
uma nobre sobrevivência. Passa a ser bonito cortar-se, salgar-se e largar-se triunfante
sobre as labaredas. Parte do que fomos vira uma parte que já não é, e já não
está, porque se queimou e se engoliu. E pra onde vai? Como diz Luiz Bras em sua
pequena coleção de grandes horrores, o maior bem é tristonho, toda vida é sonho,
e o calor do infinito mistério é coisa da vida mesmo, pois a vida é incêndio.
Não é raro ver uma formiga carregando um
pedacinho de folha e, lá no alto, levemente agarrada à extremidade, outra
formiga, pegando carona de volta pra casa. Mas a carona só nos parece ser
assim, carona e não outra coisa, porque nós é que entendemos essa ideia de
carona. A formiga que vai agarrada, nas alturas, certamente pegou a folha com a
mesma intenção, com a mesma responsabilidade operária da outra formiga, que
conseguiu se fazer dona temporária da folha que logo mais será de todo o
formigueiro. Imagine o problema: talvez tenha ocorrido que, antes dessa formiga
que com força carrega folha+carona, a outra, a da carona, já tivesse visto e
abocanhado tal bem da natureza. Quem pegou antes, quem pegou depois, não sei,
você não sabe, porque é difícil testemunhar o que aconteceu antes de começarmos
a olhar; difícil julgar uma briga de seres tão parecidos entre si. E, afinal, quando
esses seres se misturam, não é mais possível saber quem é quem; se essa não é
aquela, e se aquela não é esta. O fato é que essa tal formiga, que vira e mexe
pega carona; talvez ela seja iludida; talvez, por algum tempo, sinta que é ela
mesma que carrega a folha, e não a outra. Que outra? A outra se esconde do
outro lado da folha! Como vê-la? Como saber? O chão vai ficando pra trás, as
pernas da formiga-de-carona se debatem no ar, como se ela mesma pisasse a terra.
Quem vai traduzir a verdade e lhe dizer que não, que seus pés não tocam o chão?
Talvez ela até saiba. Mas, diante de seus olhos-antenas, a folha fala mais alto,
é seu motivo pois é sua. E só sua!
Eis que, de repente, não sei como, essa formiga
se dá finalmente conta de que se agarrou na folha que já é da outra. Se voltar
assim pra casa, de carona, terá traído sua missão.
– Ah, mas talvez ela não tenha se iludido,
formigas se comunicam bem. E sempre concordam umas com as outras. Essa deve ser
só mais uma cena da força da natureza em intuitiva disputa consigo mesma. E, lembre-se,
“ilusão” é só palavra; como “carona”, é ideia nossa. E se for pra seguir nessa
projeção, posso mesmo pensar que ela quis disputar pelo que era sabidamente do
outro, e testar forças, resistir. A natureza selvagem, que também há de estar nelas,
dormente, ameaçando em segredo sua comunidade perfeitamente equilibrada, essa
natureza, selvagem como a nossa, de primatas, não aceitaria perder uma folha
tão verdinha.
Bem, ilusão ou disputa, o fato é que, ao
contrário de nós, essa formiga então desce da folha-carona – acabei de ver aqui
no jardim – e vai procurar em outra
folha seu verdadeiro movimento.
Não teria sido possível resenhar Sidarta em um único vídeo, não neste formato de ensaio narrativo. A princípio, a ideia foi dividi-lo em três partes; 'Ausência', 'O véu de Maia' e 'O Tempo'. Durante a escrita do segundo vídeo, decidi que 'O tempo' ficaria melhor inserido em 'O véu de Maia', portanto esta recente é a junção, parte final da minha exploração da obra de Hermann Hesse. Ao fim do vídeo, o poema L’infinito, do italiano Giacomo Leopardi (na tradução de Haroldo de Campos e na voz de Tânia Maria Ramos Fernandes), dá ao tom da impermanência a convicção de um único Agora em que todos nós naufragamos – quem sabe um naufrágio doce, se soubermos sonhar como Leopardi e contemplar como Sidarta.
PARTE I - AUSÊNCIA - Hermann Hesse e Carlos Drummond de Andrade
PARTE II - O VÉU DE MAIA E O INFINITO - Giacomo Leopardi e Hermann Hesse
Uma resenha nunca me fez tão bem quanto essa que vai ao ar hoje. Todo o processo, da leitura à pesquisa das imagens e das músicas, significou uma chance de lidar com a desesperança que me acompanhou ao retornar do Rio de Janeiro. Nos primeiros dias, antes de ler "No mar", eu só conseguia enxergar a ideia de derrota. Sentia como se houvesse encalhado. Acordaram em mim os sentimentos de descrença e medo, vindos daquela parte em nós que sempre prefere duvidar e não içar velas ao sonho.
Por isso, Toine Heijmans e suas 150 páginas de "No mar" serviram como antídoto. Era tudo que eu precisava encontrar na estante nesse momento. Após a leitura, tive a grata surpresa de descobrir a existência da adaptação em filme, feita pelo diretor Marinus Groothof, para a TV holandesa NPO. Algumas partes do filme estão na resenha em vídeo. ("Op Zee" é o título original, e foi exibido no programa "One Night Stand" no dia 10 de janeiro de 2014. Para quem tiver interesse, o filme está disponível online, gratuitamente: http://onenightstand.ntr.nl/2014/08/21/op-zee/ ) Ao fim do vídeo, a leitura do poema "O mar", de Borges, é feita na voz de Tânia Fernandes, minha mãe.
No início de setembro, descobri sobre um concurso da Amazon, o Prêmio Kindle de Literatura. Apenas livros inéditos concorreriam e o vencedor seria publicado pela Editora Nova Fronteira. O concurso estaria aberto até o dia 30/11. Por não poder concorrer com O deserto dos meus olhos, coloquei em mente que escreveria um novo livro em menos de três meses. A meta era finalizá-lo no dia 11/11 e ter algumas semanas para revisá-lo, antes da publicação. Adquiri um ritmo de escrita inteiramente novo para mim. Por isso é que precisei colocar de lado, por ora, as resenhas do canal prelúdios, no YouTube. Conciliando a faculdade, minhas pesquisas e a escrita, revisitei uma cidadezinha que guardo no coração e produzi cerca de 3 mil palavras por dia. No início de novembro, um pouco atrasado, adentrei os capítulos finais... sempre os mais difíceis para mim. No dia 24 deste mês, terminei a escrita e dei início ao processo de releitura e revisão. Ao mesmo tempo, comecei a produzir a capa (ilustrada com uma pintura de meu sobrinho Bernardo de Azevedo Nonato, de apenas 11 meses de idade; em meu Instagram é possível ver o dia em que ele nos presenteou com sua arte). Hoje o livro está pronto e publicado. Minha sombra cabe ali é uma autoficção e nos conta sobre um retorno à cidade de Cristina, do interior do sul de Minas Gerais, onde, em minha infância, tive a breve convivência com meus avós paternos. O protagonista segue os meus passos e busca recolher lembranças que só poderiam despertar ali, no contato direto com o espaço revisitado. Nessa cidade, porém, há um segredo que ninguém ainda havia descoberto.
Esse romance foi publicado hoje, no dia 29/11, e está concorrendo ao Prêmio Kindle. A divulgação dos dez primeiros finalistas será muito em breve, no dia 12 de dezembro. Imagino que a avaliação final dependa da atenção que a obra puder chamar, entre tantas que estão concorrendo. O tempo é curto. Por isso, conto com a divulgação e, sobretudo, com a leitura e avaliação de vocês (por meio das estrelas da Amazon). O livro está disponível para Kindle, por R$6,50, e gratuitamente para usuários do Kindle Unlimited. É possível lê-lo mesmo sem um aparelho Kindle; basta baixar o aplicativo para celulares, tablets, e também para PCs. Farei um vídeo para os próximos dias, contando um pouco mais sobre isso tudo! Obrigado. E boa leitura! https://www.amazon.com.br/dp/B01NAC781P
Onde está a essência inata de uma criança que foi
privada da relação com o espaço, com a língua e com outras pessoas? Ela seria
capaz de exercer algum poder de criação?
Habitar é nosso primeiro ato, habitamos antes de
nascer, e quando encontramos o mundo exterior do lado de cá do ventre materno,
o espaço é então nossa primeira descoberta. A casa é o que vem muito tempo
depois, inventada. E está em sua arquitetura o mapa da alma que deseja
recolher-se uma vez mais, continuar habitando, para voltar a entender o mundo
por um interior.
A casa, com suas divisões, refúgios, segredos e
fronteiras, é o ambiente que consagra os refúgios do próprio morador.
A beleza de plantarmos uma árvore ao lado da casa e
vermos seu crescimento é um ato que unifica exterior e interior, ato que
aguarda o dia em que essa mesma árvore quebrará a janela por onde nós tantas
vezes nos pusemos a admirá-la. Assim é a nossa relação com o espaço. E, por
isso, por somente assim enxergarmos o tempo, é nele, no espaço, em que
confessamos nossos desejos pela permanência.
Em A poética do espaço (1957), Gaston Bachelard define essa
relação de permanência da seguinte maneira:
"Por vezes acreditamos conhecer-nos
no tempo, ao passo que se conhece apenas uma série de fixações nos espaços da
estabilidade do ser, de um ser que não quer passar no tempo; que no próprio
passado, quando sai em busca do tempo perdido, quer "suspender" o voo
do tempo. Em seus mil alvéolos, o espaço retém o tempo comprimido. É essa a
função do espaço."
___________________
Essa é a partida para o vídeo que vai ao ar hoje.
Dando continuidade aos temas dos vídeos anteriores, da imaginação à linguagem,
este explora o lugar do espaço na formação de nossa natureza humana:
Ao fim dele, uma surpresa especial: a leitura do poema
é feita por Tânia Fernandes, minha mãe! E o poema, "Quintanices", é
de Regina Dayeh, de seu belíssimo livro "Meu pai desenhava navios".
Eis a transcrição:
"Segui teu conselho
abri uma janela
palavras
dançam nas ruas estreitas
pelas avenidas
grafitam nos muros
ocupam espaços
correm na areia
entre rios e pontes
entre vagas ideias
as letras as frases
escapam pulando
em cores
na boca
no sangue
na mão
chega o poema
e junto o poeta
e vem o convite,
à festa folia
brincar de poesia
os sons
toda a luz.
arejam a casa
alegram a casa
habitam em mim."
Publicado pela Miró Editorial, em 2013.
Regina Dayeh nasceu no Rio de Janeiro em 1954 e passou a infância e adolescência em Santos. Mudou-se para São Paulo, onde se formou em Direito no Largo de São Francisco, em 1977. Foi professora universitária de Direito Empresarial e é Assessora Jurídica do TRT-SP. Poeta e contista, "Meu pai desenhava navios" é seu primeiro livro de poesia.
Quando
a glória de nossos pais é cantada com versos de temor, quando suas dores lhes deram
a luta e a redenção, é quando nos afiamos com uma nociva ironia:
aprendemos a temer determinada coisa e a desejá-la ao mesmo tempo.
Se
toda história cumpre seu papel quando nos coloca nos passos e nos percalços dos
heróis, como então aprender o valor da reverência sem enveredarmos agrilhoados pelos
perigosos terrenos da encenação?
Este
é o fio inextensível que nos mantém a todos falsamente caídos, suspensos, pêndulos,
certos de mil liberdades. Só vivemos quando rodamos, e rondamos, porém, um
centro à cuja face nunca levantamos os olhos; divisamos o que parece distante,
fora de foco, mas que se trata apenas do chão, tão perto. Pontos da
superfície em que mal tocamos são passageiros, como outros tantos pontos que ficam
para trás antes que possamos percebê-los em detalhes, pontos cheios de
particularidades que tornamos a não notar quando os reencontramos. Não temos
certeza se rodamos à esquerda ou à direita, não há ar que toque a face e
denuncie a direção a que seguimos. Sonhamos fugas tangenciais, aferimos planos
antigos; às vezes dizemos a nós mesmos, Rompemos o fio!, é quando sentimos a
resistência do ar e cogitamos ter saído enfim por aquela reta tão necessária; juramos
já estar seguindo para longe, quando reabrimos os olhos e nos encontramos de
volta, noutro ponto igual da rota pendular. Seguimos sós aos lugares em que
estivemos, reaproximamos os velhos atos e ecoamos os gritos das dores daqueles
outros que já não abrem a boca.
Aprendemos a temer, não a evitar a tração do desejo.
Desejamos
o que tememos pois é só assim que nos sentimos em luta, numa luta que possamos
chamar de nossa, que pensamos ser legítima.
Mas
de legítima só há a dor que não tememos e não buscamos. É aquela que rompe o fio quando estamos de olhos abertos.
(para ler este texto na íntegra, basta clicar aqui; disponível gratuitamente para assinantes do Kindle Unlimited!)
Ontem você chorou de dor e resolvi lhe escrever
estas palavras.
Tenho tido a chance de observá-lo enquanto seus
olhos descobrem cada detalhe deste mundo. Com quais cores seu quarto foi
decorado? Qual a textura dos pelos daqueles três cachorros que te aguardam para
brincar? O que é um cachorro? As palavras agora não existem. As palavras, você
descobrirá, têm um jeito de serem nossas e de ninguém ao mesmo tempo. Pois são
antes os sons que te interrompem as sensações, ruídos cantados que saem da boca
dos outros te chamando para um mundo que ainda não é seu. Só lhe resta ter criatividade
para inventar sentidos de acordo com a repetição de algumas sílabas; as mais
frequentes, você está prestes a descobrir, jáo
identificavam antes mesmo de você chegar. E todas essas novidades sonoras
encontram par no mundo visual. Fico curioso para saber quando será o instante
exato em que, à noite, você de repente se dará conta de que uma daquelas luzes
lá no alto não é a lâmpada de mais um poste, mas um disco branco e único
acima das nuvens, entre milhares de pontinhos cintilantes.
Tantas coisas ainda têm tão pouco significado que
é como se tudo ainda não tivesse nascido. Tudo ainda está por chegar, embora
você já esteja aqui.
Em outras palavras, quando nos damos conta de que
estamos aqui, há muito tempo chegamos e nem pudemos perceber o processo gradual de
todas as outras coisas que chegam. É uma das trapaças da vida: só percebemos
aquilo que foi, não aquilo que é. O dia de hoje só chega amanhã.
Ontem você chorou de dor.
– Quando você vai escrever um conto para o
Bernardo? – seu pai me encorajou várias vezes. E há algum tempo eu me coloquei
pensando sobre o que poderia escrever. A ideia implícita de se escrever um
conto é a de que eu lhe contasse uma história, com início, meio e fim, uma
ficção provavelmente, talvez no formato de um conto infantil, talvez algo
mágico que te fizesse imaginar mundos, atos e cores, contos, afinal, como os
que você terá ouvido e lido daqui a alguns anos. Mas resolvi contar algo melhor
do que qualquer coisa que eu pudesse inventar. Vou lhe escrever um pouco sobre
as coisas que você amanhã não terá condições de se lembrar.
Como você se recordaria do almoço de ontem, quando
você ficou soltando puns, todo sorridente, sacudindo suas pernas no ar como se
pedalasse uma bicicleta invisível, ali ao nosso lado da mesa, deitado em seu
carrinho, dando os gritos de mais uma das suas conversas que não necessitam
daquela coisa arriscada e imprecisa que inventamos e chamamos decompreensão? Não é uma
injustiça enorme você não poder se lembrar desse dia? Ontem comíamos o almoço
delicioso que sua inigualável avó Tânia, minha mãe, cozinhou. Ela é a melhor
cozinheira desse mundo, pode acreditar no tio. Os olhos dela brilham quando
encontram os seus, afinal de contas você esteve vivo ali dentro, dentro
dos olhos dela, há muito tempo. Sabia disso? Esqueça as cegonhas
(desculpa), o que nos trouxe até aqui foram os olhos de muitas pessoas que
nunca poderemos conhecer. Olhos que se fecharam e se reabrem nos seus.
Se for complicado entender isso aí, pode pensar primeiro na
barriga da sua mãe, e depois na barriga da minha mãe. Elas são como bonecas
russas. Já ouviu falar dessas bonecas? Durante o almoço de ontem falamos sobre
isso. Vou fazer como um dos meus autores preferidos costumava fazer (Kurt
Vonnegut é o nome; vale a pena ler os livros dele!) e interromper o texto para
desenhar uma dessas bonecas para você:
As mulheres têm esse superpoder e essa grande responsabilidade;
elas permitem que nós continuemos a existir. Graças a elas, tudo que fazemos é
chegar. Mesmo quando estamos partindo.
Pessoal, preparei um vídeo especial. É o book trailer de O deserto dos meus olhos, pois teve início a venda da 2ª edição física do livro! Para receber o seu exemplar em casa, basta entrar em www.leonidris.com (o frete é gratuito para todo o Brasil)! Agradeço ao músico Brice Davoli, pela gentil permissão de uso de sua composição, "Love Stream".
Imagine acordar hoje sem
lembrar que existiu um dia anterior em sua vida. Nenhum nome a dar ao corpo que
se move para fora da cama. Não saber quem são as pessoas nas fotos da mesinha
de cabeceira. Nada resta em sua mente além de algumas palavras vazias de
significado. Você ainda sabe falar, mas não sabe o que falar nem por que
deveria fazê-lo.
Esse é o protagonista da
primeira experiência do cineasta J.J. Abrams na literatura. O S. que temos em mãos é um invólucro para
outro livro, intitulado O Navio de Teseu,
um livro de biblioteca que foi lido e rabiscado por outros dois leitores muito
antes de chegar em nossas mãos. Dentro ainda existem papéis, documentos e
cartões postais trocados entre os leitores. Mas quem são esses leitores? Quem é
o autor, um tal de V.M. Straka? E o protagonista sem memória, o que ele vai
fazer em meio a isso tudo?
Quanto à identidade do
autor, podemos nos juntar à investigação dos dois leitores das margens, Eric e
Jennifer, e buscar pistas, resolver códigos numéricos e linguísticos. Enquanto
nos perdemos nisso, todas as questões são orquestradas e respondidas
secretamente por outras duas mentes ocultas, nomeadas apenas no selo que
rompemos antes de abrir o livro. J.J. Abrams e Doug Dorst.
Emily Berl/NYT
Em mais de uma
entrevista, sempre ao lado de Dorst, Abrams expôs um medo que foi constante durante
a produção deste livro: o risco de tudo parecer apenas um artifício, um truque
do projeto gráfico a ofuscar o vazio de uma história possivelmente pouco
interessante em segundo plano. Pois a ideia teve início assim, de modo
artificioso, sem pretensões de significados maiores além de uma proposta gráfica
inédita… e talvez promissora. O truque, portanto, dependeria de uma história
que valesse a pena ser contada por meio desses artifícios; a dificuldade seria
justificar o projeto gráfico. Abrams não teve pressa, levou mais de uma década
para descobrir o caminho.
Tudo teve início em 1998,
quando ele encontrou no aeroporto de Los Angeles um livro abandonado (The Cry of the Halidon, de Robert
Ludlum), com uma anotação no interior:
Quem
quer que encontre isso, por favor leia e deixe em algum lugar para outra pessoa
encontrar.
Isso bastou para despertar
em Abrams uma ideia que alterava a concepção do que entendemos ser um livro – uma
comunicação entre autor e leitor. Em uma entrevista a CBS em 2013, ele disse
que naquele momento conseguiu ver o livro como “uma embarcação de comunicação
entre dois leitores”. Essa alteração da posição tradicional da leitura parece,
por si só, um ponto de partida de enorme potencial, mas qual seria a essência
do livro lido por essas duas pessoas? É aqui que, em fevereiro de 2009, entra
Doug Dorst, autor de Alive in Necropolis
(ainda sem tradução para o português).
Segundo o próprio J.J.
Abrams, foi Dorst o responsável pela escrita do livro inteiro, com eventuais
reuniões sobre o que estava sendo produzido aqui e acolá, o que de modo algum é
uma novidade para Abrams. O cineasta que muitos aprenderam a idolatrar, criador
das séries Alias, LOST e Fringe e responsável por revitalizar Star Trek e Star
Wars, tem acumulado resultados brilhantes na arte de dividir a produção das histórias
que conta. Sua constante é a imagem final, que parte de uma premissa de
mistério – de se valorizar mais a pergunta do que uma resposta. Mas todas suas melhores
produções compartilham também de uma sábia colaboração na escrita de roteiro.
Embora tenha entrado em Hollywood, no início dos anos 90, ao assinar sozinho
(ainda como Jeffrey Abrams) os roteiros de Eternamente
Jovem, com Mel Gibson, e Uma Segunda
Chance, com Harrison Ford, Abrams encontrou maior sucesso ao dividir a
escrita de projetos como Armageddon e
sua primeira série, Felicity. Foi durante
essas produções que conheceu os frutos da escrita colaborativa com Adam
Horowitz, quem depois foi levado à equipe de LOST – geralmente creditada, e
criticada, apenas como produto da mente de Abrams. Vale lembrar que a série
sobre os sobreviventes do voo 815 na ilha misteriosa teve a influência direta de
Abrams apenas na primeira temporada, quando Damon Lindelof tomou o leme e se
encarregou de guiar a escrita até o fim. Abrams não participou da segunda
temporada pois se comprometeu a dirigir Missão
Impossível III, com Roberto Orci e Alex Kurtzman – dois roteiristas que ele
depois levou a Star Trek (Damon Lindelof também foi chamado ao time para o
roteiro da continuação, Star Trek Into
Darkness).
O que essa teia de nomes
e colaborações recorrentes revela é que o sucesso de Abrams está, acima de
tudo, em colocar-se na posição de maestro. As melhores histórias que ele nos conta,
como é o caso de Star Wars: O Despertar
da Força, são projetos cuja premissa e direção final carregam sua visão,
mas cuja identidade se dissipa em outras mentes. Não por acaso, esse é o valor
maior de S., que reflete sua
colaboração na própria narrativa: a autoria é inescrutável.
O mistério maior de S., à primeira vista, nos parece ser
sobre a identidade de V.M. Straka, o autor fictício criado por Abrams e Dorst,
mas a característica essencial desse mistério esbarra em qualquer identidade
que se deseje encontrar, como a do protagonista ou do próprio leitor, que aqui,
ao lado de Eric e Jennifer, não tem o direito de existir livre para ser um só.
O título O Navio de Teseu, por sua vez, faz
referência direta ao paradoxo proposto pelo historiador e filósofo grego Plutarco,
que problematizou o costume de reformas da embarcação que teria levado Teseu
até Creta, onde venceu o Minotauro. Plutarco conta que a embarcação foi
preservada pelos atenienses por quase mil anos e propôs o desafio de
explicarmos quando é que alguma coisa perde sua essência, quando é que deixa de
ser o que a consideramos ser. Ao longo do suposto milênio, o navio usado por
Teseu teve de passar por inúmeras reformas, sempre perdendo suas partes
originais e sendo reconstruído com partes novas. Então, pergunta-se, ao se
substituir a última parte constituinte do navio original, ele deixaria de ser O
navio de Teseu?
Esse é um problema que
nos inspira – e que naturalmente inspira S.
– a questionar nosso próprio ato de autoria sobre as palavras que usamos para
definir o que definimos. Algo é o que é à medida em que o nomeamos? A
identidade do navio, das coisas e até de nós mesmos, existe à parte de nossas
invenções? Para se responder, positiva ou negativamente, a esse paradoxo
essencialista é necessário um ato de renúncia ou de aceitação. Devemos
renunciar à capacidade de as palavras investigarem mistérios de uma realidade
que elas próprias mal refletem, ou então aceitar que a realidade é tão
inventada quanto o significado das palavras.
Quer saber mais sobre S.
e o Navio de Teseu? Preparei uma resenha em vídeo no meu canal no YouTube:
CURIOSIDADE
Escrevi esse texto no dia
seguinte à morte de Umberto Eco, professor de todos nós amantes dos mistérios
que nascem do uso das letras. Ainda em março deste ano devemos receber um livro
póstumo seu, Pape Satan Aleppe, a ser
publicado pela editora a que Eco se juntou pouco antes de falecer. O nome dela?
La Nave di Teseo.
Se eu soubesse dessa
curiosidade e da triste notícia antes de fazer o vídeo acima, teria
acrescentado o lembrete de que Eco era, entre nossos contemporâneos, o semiólogo
mais determinado a construir sobre as bases de Saussure (citado no vídeo) e
Peirce, a unir supostas diferenças e a ampliar o estudo sobre os símbolos.
Portanto, que esse vídeo sirva também como uma homenagem à área do saber que
Eco tanto amava. E como um convite. Ao nosso constante retorno à linguística e
aos avanços que a escrita de Eco nos trouxe.
As torres de San Gimignano são lembranças das
disputas de famílias antigas. Como crianças sentadas na praia, comparando a
altura dos montes de areia que constroem, os grandes nomes dessa cidadezinha
resolviam atestar a superioridade pela altura que alcançavam. Nenhuma dessas
torres é tão alta quanto os menores prédios da Avenida Paulista, mesmo assim, a maior
delas me aterrorizou.
Chovia. Minha irmã e minha mãe haviam descoberto
uma loja de tecido que fazia bordados em utensílios de cozinha e não saíram
mais de lá. Dali a pouco anoiteceria e eu tinha meus planos de subir
a maior torre da cidade enquanto ainda houvesse luz no céu. Se anoitecesse, eu
perderia a vista da cidade. Resolvi deixá-las para trás e segui à entrada da
Torre.
Talvez pela chuva, pelo dia, talvez pela hora,
ninguém estava no primeiro andar. O primeiro lance de escada dava numa galeria
de relíquias da cidade, também ali nenhuma vivalma. Passada a lojinha de
entrada, também vazia, adquiri meu ticket e segui às catracas. O saguão da
Torre propriamente dita, onde finalmente começaria a subida, revelava a
perpendicularidade que eu enfrentaria: todos os degraus eram vazados, de ferro,
de modo que era possível ver através deles até que altura eu deveria subir. Não
avistei nenhum movimento, nem ouvi sinais de que alguém já estivesse a alguns
lances dali. O silêncio, a princípio, me permitiu apreciar a subida e refletir
sobre o valor milenar que aquele espaço adquirira. Esse é o tipo de
interiorização que geralmente escapa aos espaços disputados por tantos turistas. Se visitar esses espaços em meio a uma
caravana já pode ser especial, imagine quão profunda experiência não seria poder
caminhar sem nenhuma outra pessoa por perto, escutando apenas
os próprios passos e imaginando a origem de cada marca nas pedras.
Venci os primeiros lances. Embora aquela
simples torre não tivesse a importância de um Coliseu, eu imaginei que aquelas
escadas vivessem apinhadas de gente noutros dias não chuvosos de uma alta
temporada. Mas passei a rever minhas ideias quando notei teias de aranha
formadas entre os degraus e os corrimãos. O lance seguinte começou a ranger e me
preocupei pela primeira vez com a idade dos degraus. Nisso, olhei para baixo e
notei através do ferro vazado a altura que já me separava das catracas do
primeiro nível.
Subi mais quatro ou cinco lances e comecei a
ouvir as conversas dos pombos. Ou melhor, o monólogo interior de cada um deles; pois um pombo não espera que o outro termine de falar para só então
respondê-lo. Um interpela o outro, grunhindo, como se a resmungar para
si mesmos aquilo que repudiam do que o outro ainda não terminou de dizer. Em resumo, é uma balbúrdia bastante
semelhante à Câmara dos Deputados (nos dias em que os nossos representantes não
estão se batendo a caminho da máquina de voto, pois pombos não se batem por
questões ideológicas).
Quando pombos se estapeiam geralmente é porque
disputam comida, quando não precisam falar nada e em silêncio, famintos,
entendem que só o contato físico pode resolver o problema.
Dos silêncios humanos também irrompem
discussões terríveis. Quando eu era pequeno, acompanhando minha mãe em um grupo de estudos dela, fiquei na sala de espera, sentado num
sofá diante da divisória de vidro pela qual eu podia avistar o ambiente em que
as pessoas estavam sentadas, em roda. Em algum momento, um casal
se levantou e saiu de dentro da sala. Eles gesticulavam, um para o outro,
exasperados. Gesticulavam sem emitir som algum, embora a boca da mulher e do
homem se movessem em palavras mudas. Ele então passou a falar de verdade. A
mulher continuou a não responder da maneira convencional; apenas gesticulava. Pouco
a pouco, aproximaram-se do sofá em que eu estava e pararam ao centro, sobre um
tapete. Essa sala de espera estava escura, talvez eles não tivessem notado
minha presença. A discussão estava para terminar, não sem antes alcançar um
ponto crítico. Eu era pequeno demais para entender as disfunções sensoriais que
poderiam explicar a estranheza daquela conversa, mas eu entendi melhor o que
acontecia quando a mulher fez barulhos esquisitos. Ela também queria falar, respondê-lo
enfim como ele fazia, com a voz, mas parecia encontrar dor para tirar as
palavras da garganta. O som que ela conseguia fazer era impossível de se traduzir,
mas o homem talvez entendesse, pois ele respondeu gritando alguma coisa que eu
adoraria lembrar. Ela quis gesticular algo mais, mas ele de repente lançou os braços
em sua direção e a jogou no chão, caindo em cima de seu corpo. Eu não consegui chamar
ninguém, estava imobilizado pelo medo da cena. Ela agiu, da única maneira que
poderia agir, encontrando forças para revidar. Começou a esmurrá-lo e puxar seu
cabelo. A partir daí minha memória corta a cena e me vejo no colo de minha mãe.
Alguém separara o casal e eles não estavam mais ali. Minha mãe me contou que eram pai e filha, e que ela era muda.
Soava como se houvesse centenas de pombos a
alguns metros da minha cabeça. Comecei a imaginar o que eu poderia encontrar se
continuasse subindo. Estariam todos reunidos ao redor de onde eu teria de
surgir? Voariam para longe ou para cima de mim? Na hora lembrei-me da cena da
senhora dos pombos do Central Park em Esqueceram de mim 2. Os pombos cobrindo o
corpo da mulher era a cena mais assustadora de todas que eu vira na Sessão da
Tarde. E se esses pombos italianos fossem mais famintos e estressados que os
pombos de NYC?
Mas o andar final não deu ao ar livre, havia
apenas janelas com vista para uma das praças e, no canto esquerdo, um campo de futebol. Notei então uma escada vertical,
descendo de uma espécie de alçapão, aberto, um pequeno quadrado com a luz do fim
de tarde chuvoso que pairava sobre a torre. Alguns pombos voavam ao redor das janelas,
pousando vez ou outra na estreita sobra de pedra. Cogitei a possibilidade
daquela escada não ser para acesso dos turistas, uma vez que estava inclinada
demais e não tocava o chão. Talvez algum funcionário tivesse esquecido de
retirá-la e o andar das janelas fosse o limite da subida para quem quisesse ver
a cidade ali de cima. A vista não era ruim, mas as janelas não eram
grandes, via-se apenas uma pequena parte da cidade e o vidro impedia que o ar
fluísse. Sem ar, sem noção de espaço. Eu havia subido para sentir o espaço da
cidade, queria poder vê-la por inteiro.
Coloquei um pé no primeiro degrau da suposta escada
proibida. Ela balançou, parecia prestes a se soltar. Fiquei olhando-a por algum
tempo, calculando riscos e me acovardando a cada lampejo de decisão; nisso devo
ter levado dois minutos. Ou dez, não posso saber. Quando uma parte nossa
conversa com a outra, o tempo se divide em dois: o tempo da parte que tenta
convencer e o tempo da outra, que, ao argumentar em defesa, distrai ambas da
percepção do tempo. Quem já não experimentou isso enquanto lava uma louça
acumulada? A pia esvazia rapidamente quando temos algo a conversar conosco, especialmente
quando discordamos do que temos a nos dizer.
Subiram vozes dos andares abaixo de mim. Pelo
ferro vazado, avistei a cabeça deles. Era um casal. Postei-me numa das janelas
e comecei a tirar fotos da vista, como quem acaba de chegar ali e não encontra
muita razão para se amedrontar com a escada bamba do alçapão.
Assim que o casal chegou ao meu andar, olhei de relance para os seus rostos, para me
mostrar solícito a cumprimentá-los, mas eles preferiram não olhar na minha
direção. Falaram entre si. Eram portugueses. Fiquei quieto, aproveitando que
não saberiam que eu podia entender o que falavam.
– Podemos continuar subindo? – ele perguntou.
Eles haviam parado diante da escada. A mulher
não respondeu, foi ver a vista da janela. Ele colocou o primeiro pé, segurou
nas laterais da escada e deu um impulso. Ela vacilou de uma forma ainda mais preocupante.
Ele abortou a subida imediatamente.
– Acho que não é seguro – disse para si mesmo,
embora pudesse querer dar à mulher a impressão de que fizera o teste por ela e
estava prevenindo-a da tentativa. – É possível que seja só até este andar.
– Por isso mesmo devem ter colocado as janelas – ela disse.
Eles se afastaram da escada e foram se
contentar com a vista de uma janela.
Ela prosseguiu dizendo que era necessário que
houvesse janelas pois, certamente, em algum momento do passado, pessoas deviam ter
escolhido a torre como ponto de suicídio. Não se precaveram o bastante ao
deixar esta escada solta, disse o homem, concluindo com a opinião de que o suicídio
de turistas era improvável, já que só se pode viajar feliz. A mulher riu por
algum motivo, talvez achando engraçado a proposição de que depressivos não
viajam. Ele reiterou dizendo que quem viaja o mundo deixa as infelicidades em
casa. Eu soube que ele estava completamente errado em achar que a tristeza fica
guardada em alguma gaveta quando fazemos a mala, mas notei que eu sempre fizera
isso. Seja em viagens para cidades vizinhas ou para um país distante. Eu sempre
deixei no meu quarto o que pudesse estar doendo. Todas minhas viagens foram idílicas.
Não havia sensação de que o tempo passava e, olhando para trás, percebo que eu
não realizava que em algum momento teria que partir e voltar.
Fui à escada outra vez e não dei apenas um
passo. Eles se viraram para me olhar imediatamente. Subi dois, três, quatro,
todos os degraus, a escada parecia prestes a se soltar, mas continuei firme,
até sair com a cabeça na garoa.
Eles logo vieram atrás de mim. Foram até uma
beirada do parapeito de pedra e eu à outra. Não havia pombo algum ali. Respirei
o ar puro e frio, satisfeito por ter conseguido subir para sentir o espaço e
enxergar o que eu tanto queria. A cidade sulcava o morro sobre o qual havia
sido construída, de modo que se assemelhava a uma daquelas miniaturas fechadas
dentro de um globinho. O mundo ao redor do globo era muito mais vasto e os
limites da cidade estavam próximos demais. Ela terminava logo depois de começar.