segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Nunca a encontrei

Encontrei um cílio dentro de um dos livros antigos que consulto na biblioteca. Ou talvez fosse um pelo de uma sobrancelha. Entre as páginas. E o assoprei, por impulso. Imediatamente um sentimento de culpa e violação me tomou e me arrependi sem entender o porquê.

Fui ao chão, metendo-me a procurar por aquela pessoa cujos olhos, sabe-se lá quando, ontem ou décadas atrás, haviam passado pelas palavras que os meus olhos liam ali há pouco.






sábado, 10 de outubro de 2015

O Algoz

Os ponteiros dos relógios do mundo todo só giram porque nós os obrigamos. Assim como o Sol não passa pelo céu, o tempo não está passando pelos relógios, nem por nós. O tempo não nos mata.
Não podemos dizer que o tempo está em movimento, pois o tempo não está aqui nem ali. Tempo não se obtém, não se possui. Não é possível segurá-lo ou ainda imaginar que ele está à frente, à toda velocidade. Não se deve antecipar sua passagem nem temer perdê-lo para sempre. Tempo não se perde, não se acha. Para achá-lo, ele precisaria estar. Para perdê-lo, ele precisaria ser. Perdemos apenas a nós mesmos, porque somos e estamos. Nós é que passamos, sem jamais conseguirmos observar o que está à volta e à frente ou o que fica pra trás, por não sabermos ou não podermos olhar, talvez por não querermos. É certo que não conseguimos. Nessa nossa multidão ninguém vê o que vai embora. Estão todos com os olhos dirigidos a um ponto cego e escuro, que se aproxima tristemente rápido. O tempo não corre. Está parado. Nós é que corremos. Cada vez mais rápido, sem carregarmos nada além de imagens, sem termos fôlego para crescer como as montanhas crescem. Carregamos linguagem, que também perde fôlego. À nossa imagem e semelhança, inventamos qualquer frase, que, por natureza, vence períodos para dirigir-se sempre a um ponto final.

revisitado em 11/04/16


Saturno Cortando as Asas do Cupido com uma Foice (1802) Ivan Akimov (Tretyakov Gallery)

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Sobre o que nos separa

Olá, pessoal! Hoje vou compartilhar três coisas com vocês. Primeiro, um novo conto e, mais abaixo, dois vídeos.
O conto de hoje é intitulado...



Sobre o que nos separa

Desordenaram os trilhos de trem e isso causou um enorme problema – você poderia pensar estar seguindo rumo a Nova Iorque e acabar chegando em Kinshasa, ou rumo a Shangai e encontrar-se perdido em Instambul.
A princípio, o problema pareceu se limitar a uma perda de compromissos em massa, de centenas de milhares de pessoas ao mesmo tempo, o que já seria terrivelmente caótico, mas o agravante era o seguinte: a estranha anomalia não foi um acontecimento momentâneo e ninguém poderia voltar tão facilmente para onde estivera. Todos os trens, de ferrovias e metrôs do mundo todo foram magicamente alterados. Era possível sair de Manhattan e parar, poucos minutos depois na estação Waterloo em Londres, ou na Odéon de Paris. Trens carregados de carvão e cobre desapareciam do Arizona e paravam na Rússia e no Brasil; outros tantos carregados de contêiners com alimentos paravam em trilhos há muito inutilizados na África subsaariana e em meio a casas de cidades pobres no sul da Ásia. Essas cargas eram recebidas com louvor, interpretadas pelas comunidades necessitadas como um intencionado envio humanitário. Mas dessa aleatoriedade, raros destinos eram benéficos. Embora o pior não tivesse ocorrido – por alguma razão, não houve notícia de nem sequer um acidente, nenhum trem colidiu com outro; todos eram desviados numa harmoniosa substituição – por outro lado, em questão de semanas, a economia mundial foi fortemente prejudicada. Nenhum país se sentiu seguro em transportar o que devia. Em todas as metrópoles, aqueles que desejassem ir ao trabalho tinham de evitar o metrô, congestionando então as ruas de uma maneira nunca antes vista. Transportes que assegurassem um destino eram possíveis apenas pelo mar, pelo ar e pelas estradas. Naturalmente, a situação sobrecarregou esses meios e conseguir vagas em voos emergenciais pela Europa tornou-se um pesadelo. O espaço aéreo emaranhava-se perigosamente.
(CONTINUA...)


Esses foram os dois primeiros parágrafos. O conto inteiro está disponível na Amazon! Se você não possui um Kindle e-reader, também conseguirá ler. Basta baixar o aplicativo Kindle para celulares, tablets e computadores (o app também pode ser encontrado pela Play Store do seu Android ou pela App Store do seu iPhone). Depois é só colocar na Busca o título, ou o meu nome.

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Passei as últimas semanas sem fazer postagens pois me dediquei a ampliar minha produção de conteúdo para vocês. Decidi estender o espaço desse blog e fazê-lo chegar ao YouTube, ao canal prelúdios. Isso custou mais tempo, principalmente a edição de vídeos (algo que estou aprendendo melhor enquanto faço). Mas continuarei a fazer postagens aqui e já tenho textos preparados para as próximas semanas.
No primeiro vídeo do canal, falo sobre quais leituras me formaram como leitor, desde a infância até a faculdade, falo também sobre o lançamento de O Deserto dos Meus Olhos e respondo a um dos primeiros leitores, o Ronni Anderson. (Se quiserem, deem uma olhada no site dele, tem bastante conteúdo).
No segundo vídeo, conto por que, ao contrario do que normalmente se espera, não gostei do livro Perdido em Marte, de Andy Weir, e adorei o filme, agora em cartaz nos cinemas, dirigido por Ridley Scott (Gladiador, Exodus, Alien, Prometheus) e estrelado pelo Matt Damon.

Podem se inscrever no canal, pois pretendo produzir mais para vocês!



segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O Leão de Bronze

Em Gelateria il Cantagalli, o post do dia 17 de agosto, eu compartilhei um trecho que fazia parte de um conto, O Leão de Bronze, enviado a um concurso da editora Andross. Para quem se interessou por saber como poderia continuar aquele parágrafo, que história haveria para contar dali em diante, a boa notícia que trago hoje é que o conto foi aprovado e selecionado para publicação da coletânea de contos intitulada Marcas Eternas, organizada por Leandro Schulai, com lançamento previsto para novembro de 2015, na 6ª edição do evento Livros em Pauta!
Agradeço ao Leandro e à editora pela leitura e pelo projeto promissor. Estou curioso para saber quais histórias trarão os outros contos do livro!
Aos leitores interessados em obter uma cópia de Marcas Eternas: eu receberei da editora 20 exemplares do livro para venda pessoal. Assim que os livros estiverem em minhas mãos, trarei notícias.




sábado, 12 de setembro de 2015

Diário de viagens que não voltam – Segunda nota

02 de outubro de 2013
Viareggio, Via Michele Coppino, 02/10/13

Havíamos parado em Viareggio para conhecer a cidade brevemente. Era jantar e partir, mas não encontrávamos muitos lugares abertos. Apenas bares pouco convidativos para a noite em família. Não era tão tarde, mas andamos até as docas com a sensação de estarmos numa cidade abandonada. Ao fim da Via Michele Coppino, paramos diante de yachts ancorados e encarei o mar e a escuridão do horizonte ali escondido, tentando descobrir para que porção do Mar Mediterrâneo eu estava virado. Estaria adiante a Grécia ou a Sardenha? A Croácia ou o norte da África? Fizemos o caminho de volta e encontramos um restaurante ainda aberto, que não havíamos notado antes. Ocupamos uma mesa do lado de fora, na calçada, com vista para a Piazza Lorenzo Viani. Lembro de ter procurado por um Wi-fi, assim que sentamos. Desejava abrir o Whatsapp para escrever algo para minha namorada, para pedir desculpas por não ter conseguido mandar nenhuma mensagem naquele dia. Era início de relacionamento, quando o silêncio de um dia do outro lado do mundo parecia poder comprometer muita coisa.
Não notei a chegada de um homem. Quando o vi, ele já estava ali. Era uma daquelas pessoas que encontramos aos montes na Itália, um imigrante ou refugiado, lutando para vender alguma coisa. Ele estava de costas para a nossa mesa, dirigia-se ao interior do restaurante, pelo vidro, em silêncio, movendo no ar uma rosa vermelha. Na outra mão segurava um buquê. Ele se esforçava para se fazer de vitrine para aqueles que jantavam, embora o jantar daquelas pessoas fosse a verdadeira vitrine aos olhos dele.
Minha memória não me permite saber o tempo que isso levou, mas a imagem que tenho é ininterrupta, ele parece ficar ali pra sempre. Talvez ele tenha mesmo ficado por longos minutos, olhando para dentro, mas em algum momento o interrompemos. Minha mãe o chamou. Ele se virou e veio até a nossa mesa. Não possuía um dos olhos. No lugar, uma cicatriz.
“Where are you from?”, minha mãe perguntou.
“Bangladesh”, ele disse. “And you?”
Respondemos e, por alguma razão, ele sorriu com genuína felicidade.
Dissemos que queríamos uma flor. Ele disse 3 euros, demos 5 e ele me entregou a rosa. Agradeceu, se afastou da calçada do restaurante e foi sumindo, lentamente, pela rua.
Senti que em algum momento escreveria sobre ele, mas não sabia quando iria fazê-lo. Gostaria de lembrar o seu nome. Minha mãe perguntou, ele disse, mas eu não anotei. Estava mais preocupado em pousar a rosa vermelha na cadeira à minha direita, onde eu desejava que ela estivesse naquele momento. Tirei uma foto, planejando juntar com alguma mensagem romântica e mandar por Whatsapp assim que conseguisse um sinal de Wi-fi. Só tive internet mais tarde, de volta ao hotel, quando já me sentia bobo demais por querer mostrar aquilo. Guardei pra mim mesmo, como eu fazia com tantas outras coisas.



Noite de 02/10/13, Nitens Ristorante Di Giampaoli e Paladini

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Devo ser sincero logo de início

Em meados de 2009, eu havia acabado de escrever um romance policial  que guardo na gaveta pois sei demais de seus defeitos. Foi depois de rejeitar esse primeiro livro que me dei conta de que eu havia mudado meu jeito de pensar. E de escrever também, é claro. Tive a ideia para uma nova estória. No antigo Espaço Aono da Av. Brigadeiro Luís Antônio, escrevi as primeiras palavras do que depois se tornou o prólogo de O deserto dos meus olhos. Esse lugar era um spa em que minha mãe costumava ocupar uma grande sala para as reuniões semanais do seu grupo de discussão do livro Um Curso em Milagres. Eu a acompanhava sempre, pois prezava pelo silêncio de uma das salas de espera do local. O único barulho eventual era o telefone seguido da voz da Kelma, a secretária que trabalhava na sala ao lado, e a única rara interrupção pessoal era a da Val, a faxineira que gostava de vir me dar beijos e dizer palavras de encorajamento à escrita; ela sabia que eu escrevia ficção, eu lhe contara depois de ela ter questionado se eu não me sentia sozinho ali, escrevendo.
"Jovem da sua idade não pode ficar parado desse jeito não", ela disse uma vez e eu anotei suas palavras. "Velho é que fica parado querendo morrer. Vê se anda de lá pra cá, bebe uma água."
Algumas pessoas veem a solidão como uma prisão, parecia à Val que escrever era um agravante da solidão, um atestado. Como se meu silêncio com o papel só pudesse significar tristeza. Eu lhe dizia que era o contrário. “Eu gosto bastante de escrever”, devo ter dito algo simples assim, não lembro. A prisão, afinal, está nos olhos, que vez ou outra nos fazem acreditar que só podemos ver aquilo que de fato nos cerca. É a prisão da mente sem imaginação. O problema parece ser então outro: quem encontramos em nós quando estamos sozinhos? Há quem se desespere, há quem se acalme, há quem enlouqueça.

O Arlequim, um dos personagens
de O Deserto dos Meus Olhos
Crescer em uma casa de psicólogas é garantia de ser exposto a algumas palavras especiais. Pode parecer simples agora, mas quando eu era pequeno as palavras inconsciente e ego causaram um impacto notável na forma como eu enxergava os meus amigos. Embora eu comemore efusivo todas as exposições que tive aos estudos de minha irmã e minha mãe, é claro que isso não se trata de um privilégio de casas de psicólogos. Tratava-se de um adiantamento de algumas verdades acessíveis a qualquer um que olhe para o humano. O que acontecia comigo é que minha mãe, além de psicoterapeuta, é também professora de Meditação Transcendental, da qual me tornei praticante desde os 5 anos. Por isso tive contato com uma ferramenta especial: conhecer-me enquanto eu ainda tinha pouco a descobrir em mim mesmo. Esse farol voltado para uma identidade em formação resultava, vejo agora, entre outras coisas, em uma benevolência prematura. Talvez o perdão já fosse ingênito em mim, mas diariamente aprendi a observar a falta de controle que as pessoas têm sobre os próprios atos. Eu podia chegar em casa irritado e triste por ser xingado por um menino mais velho, ou por ser chamado de raquítico por uma colega, mas logo ouvia de minha mãe os motivos que levam alguém a apontar os defeitos de outra pessoa. Eu voltava no dia seguinte preparado para perceber a fraqueza daqueles que desejavam me diminuir. O inconsciente e o ego por trás das ações não eram apenas duas palavras a mais no meu vocabulário.
Minha mãe fez ainda a maior contribuição para o meu despertar para as palavras, muito antes que eu pudesse pensar em escrever alguma coisa. Ela costumava anotar o que eu dizia sobre qualquer coisa  vida, morte, alma, espírito, deuses, paraíso, céu, sol e planetas. Ela garantia que eram frases bonitas, profundas. Fossem ou não frases boas, o maior valor daquele ato era mostrar a uma criança que toda ideia pode ser registrada, palavra por palavra. No dia seguinte, eu lia junto com ela o que eu havia falado, sem me lembrar como eu pensara naquilo. Era natural então, que eu logo passasse a prestar mais atenção na formação de cada pensamento, tornei-me um vigia das frases que surgiam na mente. Com minha mãe aprendi a pensar, porque aprendi a ver o meu pensamento desmontado em riscos de grafite ou tinta no papel.

Maharishi Mahesh Yogi e os Beatles. Ao fundo, o quadro que minha mãe
também tem em seu consultório; diante dele, aprendemos todos a meditar.
Hoje em dia eu mesmo empunho o lápis e a caneta que ela usava por mim. Prefiro escrever à mão toda primeira ideia. Quando tenho um rascunho longo, venho então para a frente do computador e trabalho em melhorias. Embora o alicerce do texto esteja todo lá, visível no rascunho, o resultado final normalmente esconde a estrutura original e apresenta um corpo inédito até para mim. Quando me surpreendo e mal enxergo a estrutura, é quando me dou por satisfeito. A mágica que enxergo na escrita, apreendi lendo. Mas a mágica que tento empreender ao escrever, descubro a cada dia, a cada palavra.


Cadernos dos últimos anos
Não só em homenagem à minha mãe escrevo, mas também ao meu avô materno, que amava sua escrivaninha  minha mãe me conta que ninguém podia mexer nela e ele lá se sentava religiosamente. É dito que seu maior sonho era viajar pelo mundo e enviar cartas contando sobre os países que visitava. Vejo sua escrivaninha como a passagem de ida e volta para qualquer lugar que quisesse imaginar. Se o dinheiro não podia levá-lo até esses lugares, talvez algumas palavras pudessem fazê-lo.
Tive a felicidade de conhecer Praga pessoalmente e garantir maior fidelidade à narrativa dos capítulos de O deserto dos meus olhos que se passam lá, mas o mais curioso é que, bem antes que eu pudesse imaginar que um dia viajaria à República Tcheca, as palavras que usei para transportar meus personagens anteciparam coisas que eu depois vivi ali. Escrevi detalhes impossíveis de se saber antes que eu visse Praga pessoalmente. Em 2010, por exemplo, imaginei a Igreja de Tyn com a porta lateral fechada e o interior em reforma, e encontrei essa mesma porta fechada para reforma em 2013. Escrevi sobre a Caverna Mágica no Monte Petrin e seu anfitrião excêntrico; anos depois o encontrei, por sorte, num momento fortuito, enquanto ele saía de sua toca, ainda de pijamas, avesso a falar com alguém. Tive de insistir por uma foto.


Reon Argondian e eu, em sua Caverna Mágica no Monte Petrin.

Durante a escrita de O deserto dos meus olhos, eu havia começado a assistir à série Cosmos, a original com Carl Sagan, dando vazão a uma paixão que eu tinha desde pequeno: o Universo. Era o tema de um dos livros que meu pai tirou de sua biblioteca particular para me dar, quando eu devia ter 12 ou 13 anos. Astronomia, de Joachim Herrmann. E eu adorava abri-lo na esperança de entender alguma coisa que estava escrita ali, querendo me tornar tão inteligente quanto o meu pai, que em mais de uma ocasião tentara me explicar a Teoria da Relatividade de Einstein. Pouco entendimento eu alcançava, tanto da teoria como do livro de Hermann, mas as imagens que a explicação de meu pai e o livro suscitavam me fascinavam. Com Carl Sagan eu sentia poder chegar bem perto de entender o que minha paixão até então apenas fantasiava, com ele conheci melhor o astrônomo Johannes Kepler e apreendi conceitos importantíssimos para a organização da minha percepção racional do mundo e, principalmente, do lugar do homem no Universo. Com ele me atentei à brevidade das existências, de modo semelhante ao que encontrei na Impermanência do budismo. São razões para eu voltar sempre às palavras, certo de que elas representam aquele refúgio capaz de alongar os instantes e preservar parte do que é provisório.


Nós somos como borboletas, que vibram por um dia e pensam que é para sempre.
Carl Sagan

Carl Sagan e seu primeiro filho
Foi de alguma forma aflorando minhas duas grandes paixões  o espírito da meditação e da psicologia de minha mãe e o universo da astronomia de meu pai –, que cheguei à ideia de levar meu protagonista não apenas a um templo budista, mas também até a casa de Kepler, em Praga. Se eu pudesse colocar na ficção aquilo que eu mais amasse, a escrita me levaria naturalmente à descoberta íntima e verossímil de um personagem. Ao descobri-lo, segui-o, apesar de ele não parecer falar da minha terra. Segui-o pois ele falava de suas paixões, temores e culpas. E é para isso que qualquer um escreve, para afastar o medo e iluminar o humano, à parte de fronteiras geográficas, aquele humano desterrado por não lembrar ao certo sua origem.

Ganesh, a encarnação corporal do Cosmos. Um dos
meus amuletos para a escrita, precioso presente de Larissa,
querida como um membro da minha família.


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O Deserto dos Meus Olhos está à venda em www.leonidris.com . Também está disponível como livro digital, pela Amazon, e pode ser lido em tablets, celulares e computadores, além do eBook Kindle:

Ilustração da capa (Raven Moon) cedida
pelo artista canadense, Lance Weisser.
Acesse o blog do pintor aqui:
http://weisserwatercolours.com/


PRÓLOGO

Devo ser sincero logo de início, enquanto sua atenção ainda não me foi prometida, enquanto não posso traí-la. Nem tudo o que contarei nas próximas páginas aconteceu realmente comigo. As pessoas e os lugares que garantirei ter conhecido fazem parte de uma série de inventos que só se mostraram assim no dia em que dei cabo de cada uma das minhas companhias. As descobertas que guardo não me perturbam; aquecem-me, mantêm-me alerta. Há um limite para qualquer mente submetida ao que fui submetido, mas o único arquiteto daquilo que desaba sobre ti és tu mesmo, como ele me disse no fim de tudo. É preciso sobreviver às próprias mortes, ao sufocamento de si mesmo na névoa venenosa do caos e do desamparo, névoa que vemos partir do mundo e dos supostos perpetradores do nosso sofrimento, mas da qual só nos libertamos quando nos descobrimos seu único feitor. Só deixarás de temer tudo o que conheces quando conheceres tudo o que temes. E o temor, o medo, por sua vez, é correlato direto da culpa. Culpa do que se fez e do que não se fez, do que se pensa ter feito e do que se pensa ter deixado de fazer. Somos muito criativos quando a tarefa é nos culpar, seja um louco como eu ou não. Mas, por ora, não me delongarei quanto a essas diferenciações; só me explico quando temo ser julgado, e não creio que serei julgado tão cedo.
Estou longe do estado purificado dos monges budistas com quem pude conviver, mas me vejo limpo o suficiente para conseguir voltar a meditar diariamente. Para o louco, existe um momento em que a loucura deixa de ser corriqueira, e a sanidade, amedrontadora. Basta que ele viva o bastante. É certo que poucos puderam sobreviver a si próprios pelo tempo necessário para o despertar, e da maioria que o fez não se pode dizer que seja muito falante… ou paciente para lidar com o papel. Pois eu o serei. Contarei sobre todos os meus dias, sobre os lugares e as pessoas, sobre todas as inverdades que me levaram à sanidade.
Não faltaram indícios de que nada daquilo era real. Afora todas as esquisitices e improbabilidades, as súbitas disposições e indisposições, ainda havia o fato de que toda vez que essa minha Arcádia, suspensa sobre tudo, me provocava o medo da morte ou o medo da felicidade, eu estava destinado a abrir os olhos num imaginário distinto do anterior. Conforme acontecia, demorei a tomar ciência de que havia como escapar dos meus próprios mecanismos. Portanto, no princípio, ponto em que jamais me questionaria sobre a falta de continuidade do que ocorrera no dia anterior, pareceu-me muitíssimo natural abrir os olhos e me encontrar na Espanha do século dezenove, em meio a acontecimentos talvez históricos – digo talvez, pois desde minha libertação não tive tempo de ir a alguma biblioteca conferir os fatos…
É uma mentira, essa frase acima… Prometi ser sincero e não quebrarei a promessa nas primeiras páginas. Não só tive tempo disponível, como bem poderia fazê-lo agora, uma vez que escrevo estas palavras sentado a uma mesa da Biblioteca Estadual de Berlim. Eu poderia ir à procura do livro que me sanasse a dúvida, mas tenho urgência em falar-lhe. O que menos importa agora, tanto para mim quanto para você, é se Juan, Domingo, Francisco e Ramón existiram ou se eu realmente tive participação no destronamento da rainha Isabel II.
(Continua...)



Rascunhos


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Gelateria il Cantagalli

Dizem que a Itália é romântica. O Woody Allen, por exemplo, me prometeu que eu encontraria o amor na capital, e eu sempre acreditei no que ele me diz. Tive de sair de Arezzo na Toscana e me mudar para Roma por razões profissionais, mas eis que, na capital, senti como se eu estivesse no centro de São Paulo, ali perto do Arouche, e pior, durante alguma Virada Cultural. Gosto do evento, não me entenda mal. Estive na edição de 2013 e sobrevivi às facas e balas perdidas. Mas aqui encontrei o mesmo amontoado de pessoas andando de um lado para o outro como se em procissão. E também os numerosos vendedores de badulaques indesejáveis estão lá e aqui. Aqui na Itália, eles são os bravos imigrantes ilegais, que atravessaram o mar mediterrâneo e se jogaram com a cara e a coragem em becos e praças para vender bolsas, rosas quase murchas e uns trocinhos brilhantes com cara de geleca que voam bem alto de um jeito que seria até belo se, depois de voarem, voltassem para a nossa mão. Um dia, veja só, tentei chegar perto de uma fonte famosa pra jogar uma moedinha, mas tive que jogar de longe, porque os turistas se aglutinavam ao redor dela e dali não sairiam nem por um decreto do Papa. E isso é assim todo santo dia. Te garanto que eu consigo uma foto melhor nos chafarizes da Praça da República. O Criolo só acha que não existe amor em SP porque não veio pra cá. Se nas ruas daqui ao menos tocasse o mesmo repertório do palco Julio Prestes, Caetano Veloso e Fabio Jr. fariam as turistas lembrarem do amor e a Daniela Mercury tremularia as rachaduras do Coliseu, enquanto os novos fiéis do axé dançariam apertadinhos nos corredores em que o Russell Crowe afiara sua espada. Mesmo assim, porém, eu me apaixonei em Roma.
É claro que meus olhos iriam parar em alguém, uma hora ou outra. Isso acontece todo dia, como já me acontecia na linha vermelha do metro de SP, onde me apaixono por pernas de salto alto toda vez que subo as escadas. Eu tenho uma queda por paixões que me levam a lugar nenhum, principalmente aquelas em que a contraparte do negócio nem sequer sabe o meu nome. Mas com ela foi diferente. Foi na Gelateria il Cantagalli, uma sorveteria do lado da Fontana di Trevi. Ela trabalha lá. No primeiro dia, pedi que escolhesse o sorvete por mim. Tive só tempo de me apaixonar por seus olhos, verdes quase da cor do sorvete de menta.
(Continua...)

"Gelateria il Cantagalli" é um prelúdio do conto O Leão de Bronzeenviado a um
concurso em andamento
.